| O negro
não apenas povoou o Brasil e deu-lhe prosperidade econômica
através do seu trabalho. Trouxe, também, as suas culturas
que deram o ethos fundamental da cultura brasileira.
Negros Serradores de tábuas. Jean-Baptiste
Debret
Vindos
de várias partes da África, os negros escravos trouxeram
as suas diversas matrizes culturais que aqui sobreviveram e serviram como
patamares de resistência social ao regime que os oprimia e queria
transformá-los apenas em máquina de trabalho.
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Tabela de Escravos
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Recibo de Pagamento
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Circular de Captura
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Com a
instalação de um governo despótico escravista, capaz
de manter a ordem contra as manifestações da quilombagem,
as suas diversas culturas foram consideradas primitivas, exóticas
e somente consentidas enquanto estivessem sob o controle do aparelho dominador.
Durante
a escravidão o negro transformou não apenas a sua religião,
mas todos os padrões das suas culturas em uma cultura de resistência
social.
Aquele
que não pode atacar frontalmente procura formas simbólicas
ou alternativas para oferecer resistência a essas forças mais
poderosas. Dessa forma o sincretismo assim chamado não foi
a incorporação do mundo religioso do negro à religião
dominadora, mas, pelo contrário, uma forma sutil de camuflar internamente
os seus deuses para preservá-los da imposição da religião
católica.
Não
havendo como fugir à religião oficial, num tempo em que existia
o monopólio do poder político e o monopólio do poder
religioso, pela classe senhorial e a igreja Católica respectivamente.
Daí o mecanismo de defesa sincrético dos negros.
A mesma
coisa aconteceu com as suas línguas. Não possuindo unidade
lingüística, os africanos foram obrigados a criar uma que fosse
comum para que pudessem entender. Os povos banto que chegaram em primeiro
lugar e aqueles que habitavam a parte sudanesa da África, posteriormente,
incorporaram ao nosso léxico milhares de vocábulos na estrutura
do português. No entanto, ninguém, ou quase ninguém,
viu essa incorporação como um fator de enriquecimento, mas,
criou-se a palavra chulo para designar esses vocábulos.
Após
a escravidão, os grupos negros que se organizaram como específicos,
na sociedade de capitalismo dependente que a substituiu, também
aproveitaram os valores culturais afro-brasileiros como instrumentos de
resistência.
Isto
não quer dizer que se conservassem puros, pois sofrem a influência
aculturativa
(isto é, branqueadora) do aparelho ideológico dominante.
É uma luta ideológico-cultural que se trava em todos os níveis,
ainda diante dos nossos olhos. O exemplo das escolas de samba, especialmente
no Rio de Janeiro – que perderam a sua especificidade de protesto simbólico
espontâneo de antigamente para se institucionalizarem, assumindo
proporções de um colossalismo quantitativo e competitivo
antipopular e subordinando-se a instituições ou grupos financiadores
que as despersonalizaram inteira ou parcialmente do seu papel inicial -,
exemplifica o que estamos afirmando. |