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Japoneses: sonhos e pesadelos
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Cena de partida da embarcação
Buenos Aires Maru
levando japoneses para
o Brasil
Museu Histórico da Imigração Japonesa |
Era 18 de junho de 1908: “às vésperas do
dia de São João os rojões subiam, explodindo estrondosamente.
E ainda, balões navegavam no céu. Contemplando comovidos
o espetáculo os imigrantes tiveram a ilusão de que o povo
brasileiro lhes estava dando as boas-vindas”. Assim Tomoo Handa, autor
de O imigrante japonês, descreve a chegada do primeiro grupo
de japoneses ao Brasil, a bordo do vapor Kasato Maru. Mas, anos depois,
um canto-lamento circulava entre esses mesmos imigrantes vindos da longínqua
terra do arroz e do imperador para a terra do café e do coronel:
“Mentiu quem disse o Brasil era bom,
mentiu a Companhia de Emigração:
no lado oposto da terra cheguei,
fiado no Paraíso, para ver o Inferno.
Do jeito como vão as coisas,
não passa de puro sonho
o dia de retorno glorioso.
Já que o fim é a morte por inanição,
melhor então é ser comido
por onça, por bicho qualquer”
Expulsos do Japão
Iludidos ou não com o “paraíso brasileiro”,
os japoneses vieram para cá porque não tinham meios de permanecer
lá. No Japão, a desintegração das camadas rurais,
que já vinha ocorrendo desde os meados de século XIX, acelerou-se
com a chamada “Restauração Meiji” (1868) e sua política
de industrialização e urbanização ultra-rápidas
às custas do setor agrário. De fato, para financiar essa
modernização do Japão sem recorrer a recursos estrangeiros,
optou-se por uma pesada taxação sobre a terra e a produção
agrícola – o que para muitos pequenos proprietários, arrendatários
e camponeses significou a deterioração ainda maior de suas
condições de vida. São essas pessoas, colocadas à
margem do processo de modernização do Japão, que foram
procurar no além-mar novas perspectivas para suas vidas.
Assim, ainda em 1868, os primeiros imigrantes japoneses
desembarcaram em Honolulu, no Havaí, para trabalhar nas plantações
de açúcar. No mesmo ano, outros chegaram à ilha de
Guam, uma possessão alemã. Com a incorporação
do Havaí pelos Estados Unidos, estabeleceu-se o fluxo migratório
de japoneses para a América: primeiro, para o oeste dos Estados
Unidos como trabalhadores da frente pioneira; depois, nas indústrias
madeireira e pesqueira do Canadá e do Peru; e, posteriormente, para
o Brasil, como colonos nas fazendas de café.
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"Agora vamos, levando a família,
para a América do Sul" - convoca
o cartaz, de 1925, de uma companhia
japonesa de imigração.
Muitos foram seduzidos por
essas propagandas, mesmo
porque não tinham meios de
continuarem vivendo no Japão.
Museu Histórico da Imigração Japonesa
T. A. Queiroz, Editora Ltda. |
Para o governo japonês, a emigração
representava a possibilidade de aliviar as tensões sociais provocadas
pela crescente marginalização de amplos setores da população,
agravadas ainda mais pela explosão demográfica verificada
na época. Não foi à toa que os primeiros contingentes
de imigrantes tenham sido recrutados entre os desempregados e indigentes
espalhados pelas cidades japonesas, sendo sua saída estimulada pelo
governo. Para isso, fundaram-se as Companhias de Emigração
– empresas privadas mas com incentivo político-econômico do
governo do Japão, podendo representá-lo junto a países
contratantes de mão-de-obra. Eram elas que negociavam os candidatos,
providenciavam os meios de transporte e se responsabilizavam pelo cumprimento
dos contratos. Também eram elas que, para expandir seus negócios
recrutando o maior número possível de candidatos à
emigração, difundiam a imagem paradisíaca do país
de destino. Assim, os primeiros imigrantes que aqui chegaram acreditavam
que tinham desembarcado no “Novo Eldorado”, a fantástica “terra
das árvores de frutos de ouro”.
A questão da mão-de-obra
Se no Japão sobrava mão-de-obra, aqui, no
Brasil, tentava-se resolver o problema de sua carência para a lavoura
cafeeira, então em expansão. Com a extinção
do tráfico de escravos, em 1850, e o fim da escravidão, em
1888, a solução encontrada foi a contratação
em massa de imigrantes europeus. O que, no entanto, fugia ao controle dos
idealizadores dessa política imigrantista era que grande parte dos
que entravam no país logo abandonavam as fazendas, desiludidos com
as péssimas condições de trabalho. Muitos retornavam
à terra natal, outros procuravam os centros urbanos, ou, ainda,
partiam para a Argentina. Se nos anos anteriores a 1900 a entrada dos imigrantes
mantinha-se em níveis elevados, nos primeiros anos deste século
eles saíram mais do que ingressavam. Levando-se em conta, que o
café, apesar das oscilações, constituía o principal
setor da economia brasileira – com uma estrutura ferroviária de
escoamento devidamente assentada e com a ampliação de novas
frentes de expansão no interior do Estado de São Paulo –
pode-se dizer que a procura de mão-de-obra superava a oferta.
É justamente nesse período de maior carência
de força de trabalho que os olhos dos cafeicultores voltaram-se
definitivamente para o Oriente, e em particular, o Japão. Desse
modo, em 1907, após algumas tentativas de negociação
entre representantes oficiais do governo japonês e o governo do Estado
de São Paulo, assinou-se, por pressão dos fazendeiros e em
caráter experimental, um contrato com a Companhia Imperial de Emigração,
do Japão. Pelo acordo, a Companhia ficava autorizada a transportar
3.000 japoneses, em parcelas anuais de mil pessoas, cabendo ao governo
de São Paulo subvencionar parte dos gastos com o transporte desses
imigrantes.
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Japoneses recém-chegados, aguardando seu
destino na Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo.
Museu Histórico da Imigração Japonesa
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Tudo contrariava o imigrante
A chegada, em 18 de junho de 1908, de cerca de 800 japoneses
foi o primeiro resultado desse contrato. Esse primeiro contingente de trabalhadores,
após rápida passagem pela Hospedaria dos Imigrantes, em São
Paulo, foi assim distribuído no interior do Estado: Fazenda Floresta,
na região de Itu (173 pessoas provenientes da ilha de Okinawa);
Fazenda Canaã, a 40 km de Ribeirão Preto (152 pessoas, também
de Okinawa); Fazenda Dumont, na estação Dumont da Mogiana
(210 pessoas de Fukushima, Kumamoto e Hiroshima); Fazenda Guatapará,
entre Ribeirão Preto e Araraquara (88 pessoas de Kagoshima, Kochi
e Niigata); Fazenda São Martinho, na estação Martinho
Prado da ferrovia Paulista (101 pessoas de Kagoshima); e Fazenda Sobrado,
próxima a São Manoel (48 pessoas de Yamaguchi e Aichi).
A experiência, porém, revelou-se desastrosa.
Com exceção da Fazenda Sobrado, que sempre gozou de boa fama
entre os imigrantes japoneses, em todas as outras ocorreram sérios
conflitos entre esses colonos e a administração. Também
houve conflitos entre os imigrantes e os funcionários da Companhia
Imperial de Emigração, acusada de ser responsável
por tal situação. Indignados com as péssimas condições
de trabalho, moradia e remuneração, os japoneses promoveram
sucessivas greves, fugas noturnas e rescisões de contrato em cada
uma das fazendas. Na Fazenda Dumont – considerada a maior plantação
de café, de propriedade de Henrique, pai de Santos Dumont -, 52
famílias retornaram à Hospedaria dos Imigrantes e, por meio
do departamento Estadual do Trabalho, foram realocados em outros empregos,
em outras localidades. Na Fazenda São Martinho, após a ocorrência
de motins, greves, revoltas e fugas, sete famílias foram expulsas.
Em solidariedade, mais 12 famílias abandonaram a fazenda. Segundo
Tomoo Handa, tudo contrariava o imigrante “desde a alimentação,
a moradia, o clima e a atmosfera da fazenda, até o jeitão
de superioridade do administrador, a arrogância do fiscal e o mau
atendimento do intérprete”.
Também houve divergências entre os próprios
japoneses. Os cafeicultores haviam estabelecido uma exigência contratual
de permitir a entrada somente a famílias constituídas de,
pelo menos, três membros de 15 a 50 anos de idade, acreditando com
isso facilitar a adaptação dos imigrantes às fazendas
e dificultar-lhes as fugas e as rescisões de contrato. Essa exigência,
no entanto, foi burlada por um engenhoso expediente: a formação
de “famílias artificiais”, na ocasião do embarque. Na maioria
das vezes, essas “famílias” se desagregavam tão logo cumprido
o prazo do contrato e até mesmo antes do seu término. Devido
às dificuldades de relacionamento, os membros “artificiais” rebelavam-se
contra a tutela do “chefe de família”, abandonando as fazendas para
procurar outras formas de atividade econômica.
O balanço final da primeira experiência
com os imigrantes japoneses é, desse modo, revelador: dos 772 japoneses
distribuídos pelas fazendas, 430 tinham se retirado após
6 meses e, 13 meses depois, apenas 191 permaneciam no mesmo local. Devido
a esse malogro, o governo do Estado de São Paulo tentou cancelar
o contrato de 1907, o que não foi feito: as Companhias de
Emigração comprometeram-se a fazer uma melhor seleção
dos trabalhadores e a aceitar uma série de novas cláusulas
contratuais para evitar greves, fugas e retiradas antes do prazo estipulado.
Mesmo assim, os resultados obtidos foram escassos. Em 1912, por exemplo,
62% dos trabalhadores japoneses abandonaram as fazendas sem cumprir os
contratos.
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"O rosto de quem trabalha
com a peneira fica
vermelho-escuro num instante,
e nele só se destaca
o brilho dos olhos. (...)
O ato de peneirar era chamado
de 'peneiramento',
e o lançamento ao ar,
'abanar', mas os japoneses
usavam a expressão
'bana-café' ou, então,
'sabiru' "
(Tomoo Handa)
Museu Histórico da Imigração Japonesa |
Ser proprietário, uma obsessão
Esses japoneses, em sua grande maioria, encaravam a imigração
de modo estritamente instrumental: a idéia era trabalhar alguns
anos no exterior, onde acumulariam uma quantidade de capital suficiente
para melhorar a situação de suas famílias quando retornassem
ao Japão. Em geral, eram solteiros e tinham uma orientação
sócio-cultural voltada para o país de origem.
Não era possível, no entanto, continuar
alimentando o sonho de regresso após o enriquecimento enquanto eles
permanecessem na condição de trabalhadores assalariados nas
fazendas de café. A saída foi então procurar outras
formas mais rentáveis de atividade econômica. Desse modo,
muitos dos antigos colonos tornaram-se contratistas, isto é, formadores
de cafezais. Segundo Zenpati Ando, em seu livro Estudos sócio-históricos
da imigração japonesa, “o trabalho de contratista ou
formador de café era uma espécie de empreitada para a formação
de cafeeiros, num período de 4 a 6 anos. Era um trabalho de derrubar,
queimar e limpar as matas, semear e cuidar dos cafezais. Cada família
empreitava
de 4.000 a 8.000 pés, conforme o número dos braços
disponíveis. (...) Com o fito de ajudar a sua receita o formador
podia fazer as culturas intercaladas de arroz e feijão entre os
cafeeiros, revertendo o produto total em seu favor. Quando o café
começa a produzir, o que ocorre a partir do quarto ano, a colheita
inicial também revertia em benefício do formador; embora
esta fosse reduzida. Findos os 4 anos, os cafezais eram entregues aos fazendeiros
quando os contratistas recebiam um tanto pela formação de
cada pé. O contrato de formação durante quatro anos
era acessível mesmo aos colonos que quase não possuíam
capital, pois eles podiam ir vivendo com a receita obtida das culturas
intercaladas”.
Foi na região de Araraquara que ocorreu o primeiro
trabalho de contratista para a formação de cafezais envolvendo
imigrantes japoneses. Em 1912, o administrador da Fazenda Guatapará
comprou uma grande extensão de terra e encarregou 40 famílias
japonesas a formar e cuidar do cafezal. Posteriormente, em 1916, essas
famílias adquiriram terra em conjunto, tornando-se o primeiro núcleo
de proprietários japoneses plantadores de café. O trabalho
como contratistas na formação de cafezais foi uma forma eficiente
encontrada pelos japoneses para acumular poupança e passar da condição
de colonos à de pequenos proprietários.
Quando isso se deu, a idéia de retorno ao Japão
começou a perder sua força. A obsessão em adquirir
terras levou os japoneses a multiplicarem sua jornada de trabalho nas culturas
independentes. Era muito comum entre os colonos brasileiros a acusação
de que os japoneses eram pecadores, pois não respeitavam as folgas
nem os dias santos. Segundo Tomoo Handa, a enxada tornava-se o instrumento
mais importante para o trabalhador japonês, adquirindo o significado
equivalente ao da espada dos samurais: uma verdadeira arma de guerra.
Banzai, Banzai
“A banda começou a tocar. Os alunos das escolas
primárias alinhados apertadamente no molhe dos cais abriram simultaneamente
as bandeirolas que até então haviam conservado enroladas.
Eram bandeiras japonesas.
Agitando-as ao som da banda as crianças começaram
a cantar:
Vamos companheiros, além-mar
Para o Brasil, um país meridional...
Para a futura fortuna elaborar
Corajosos colonizadores pioneiros...
Então, os imigrantes começaram, todos, a gritar:
Banzai,
Banzai (viva, viva). Os escolares alinhados nos cais eram alunos das
escolas primárias de Kobe, trazidos pelos professores, toda vez
que partia um navio de imigrantes”.
Assim narra Tatsuzo Ishikawa em seu romance Sooboo. O
clima de partida já era outro, triunfal, quase guerreiro: nesses
navios, além de trabalhadores, embarcavam grande quantidade de capital
para financiar os projetos de colonização no Brasil, com
o objetivo de produzir matéria-prima em larga escala para o mercado
japonês.
Era, de fato, quase uma operação militar.
A partir da segunda metade dos anos 20, em consonância com os ideais
expansionistas que ganhavam impulso no Japão na época, a
emigração passou a ser politicamente orientada: assim, em
1924, quando os Estados Unidos fecharam definitivamente as portas para
os japoneses, o Parlamento japonês aprovou a concessão de
um subsídio integral da passagem marítima para os trabalhadores
que se destinavam ao Brasil. Já no ano seguinte, segundo Francisca
I. S. Vieira, o “Brasil é para o Japão, não apenas
praticamente o único país recebedor de emigrantes, mas também
mercado potencial para investimentos. O capital japonês buscava novos
mercados para investir fora da Ásia e a ação combinada
do governo e dos capitalistas imprime novas características à
política migratória japonesa no Brasil”.
Em nome da “expansão da raça japonesa para
o além-mar”, com forte conteúdo nacionalista e militarista,
os navios partiam mês a mês, transportando até 1.500
imigrantes por vez para o porto de Santos. Ao todo, entre 1925 e 1935,
chegaram ao Brasil 141.732 japoneses, enquanto no período anterior,
de 1908 a 1924, haviam entrado 34.899. Desse modo, multiplicaram-se os
núcleos de colonização japonesa em São Paulo
e no Paraná. As Companhias de Colonização, criadas
especialmente para organizar e desenvolver tais núcleos, adquiriam
grandes glebas de terras, repassando-as em pequenos lotes para os imigrantes.
Elas também financiavam a produção, abriam estradas
e escolas, instalavam serviço médico, além de sanear
zonas insalubres. O desenvolvimento do Norte do Paraná, da Alta
Paulista (região de Marília) e da região Noroeste
do Estado de São Paulo está diretamente relacionado com a
ação dessas companhias.
Esse período, de 1925 a 1935, é por isso
considerado a fase mais próspera da imigração japonesa
no Brasil. Boa parte dos imigrantes tornaram-se proprietários e
os núcleos japoneses alcançaram grande desenvolvimento. Pode-se
dizer que nesses núcleos – que os japoneses chamavam, com seu sotaque
peculiar, de “corônia” – os imigrantes conseguiam manter, em linhas
gerais, tanto do ponto de vista social quanto cultural, o mesmo tipo de
vida que levavam nas comunidades rurais de origem.
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"Havia pequena diferença
entre as roupas dos brasileiros
e a dos italianos, mas elas
jamais chamavam atenção
como as dos colonos
japoneses.
Os vestidos das mulheres
imigrantes (...) tinham sido
recosturadas à moda
brasileira a partir de quimonos.
Os vestidos de padrões
sóbrios, os lenços ou
as toalhas na cabeça, quase
sempre branco, tudo
contrastava fortemente com
as vestimentas vermelhas dos
italianos"
(Tomoo Handa) |
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Impossível melhorar de vida
nas fazendas de café:
para os japoneses, a saída
era tornarem-se proprietários.
Alcançar esse propósito
seria facilitado com a
introdução maciça de
capitais japoneses no
Brasil a partir de segunda
metade da década de 20.
Na foto, imigrantes
japoneses em sua
lavoura de batata.
Museu Histórico da Imigração Japonesa |
O Perigo amarelo
“Não há mais remédio para o mal”,
lamentava em 1934 o deputado constituinte Félix Pacheco, a respeito
da “indigestão japonesa”. “Tudo agora, aqui, é Japão,
a propósito e sem propósito, todas as semanas, todos os dias,
nas seções pagas e não pagas dos jornais, em livros
de edições apuradas e reedições caras, em viagens,
em conferências, em telegramas, em entrevistas com retratinhos e
dados de toda a ordem”. O médico Miguel Couto também alertava
para o perigo da “japonização do Brasil” e da transformação
da Amazônia na “Nova Manchúria”, e liderou uma campanha anti-nipônica
na Assembléia Constituinte de 1934, que acabaria por aprovar a limitação
da imigração japonesa. Em conseqüência, entre
1936 e 1950, entraram apenas 14.662 japoneses, ficando o fluxo migratório
interrompido de 1942 a 1945.
Essa ofensiva contra o expansionismo japonês foi
também parte da política nacionalista implementada na época
pelo governo Vargas. Com o golpe de estado, em 1937, que implantou o chamado
“Estado Novo”, a ditadura de Vargas desencadeou a nacionalização
forçada de tudo o que tivesse coloração estrangeira.
O grande alvo foram os núcleos de colonização japonesa,
agora chamados de “quistos raciais”. A língua japonesa foi proibida
de ser falada em locais públicos; escolas e jornais japoneses foram
fechados; livros confiscados, e as pessoas que fossem flagradas cometendo
tais delitos eram imediatamente presas e enquadradas na lei.
Em 1942, o Brasil declarou guerra aos países do
Eixo (entre eles, o Japão). Em conseqüência a situação
dos imigrantes japoneses tornou-se aterrorizante. Pessoas eram presas,
casas invadidas e fabricavam-se em série “quintas-colunas” (traidores
e espiões). Todo japonês tornou-se um inimigo em potencial.
Em setembro do mesmo ano, inspirando-se na política de “evacuação”
instituída nos Estados Unidos, ordenou-se a “desocupação”
da área da Rua Conde de Sarzedas, em São Paulo, onde havia
grande concentração de japoneses. Em julho de 1943, iniciou-se
a desocupação em massa do litoral paulista, como narra Tomoo
Handa: “era noticiado o início da evacuação para interior
de cerca de dez mil famílias de pessoas oriundas do Japão
e da Alemanha que habitavam no litoral do Estado de São Paulo. (...)
No dia 12 de julho, 4 mil japoneses vindos da região de Santos já
haviam passado pela Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo para
se dirigir à Noroeste, à Alta Sorocabana e à Alta
Paulista”.
Estranha e trágica passagem pela Hospedaria dos
Imigrantes, que então servia de prisão aos imigrantes acusados
de traição e espionagem. Anos atrás, ao passar pela
mesma Hospedaria, os imigrantes traziam consigo seu sonho de Eldorado.
Agora, presos na Hospedaria-cárcere, qual o conteúdo de seus
pesadelos?
Rui Kban Sano
Japoneses: sonhos e pesadelos
/
Rui Kban Sano in Trabalhadores,
Publicação mensal do Fundo de Assistência à
Cultura, Prefeitura Municipal de Campinas, 1989.
Rui Kban Sano, Professor de Sociologia da Faculdade de
Economia, Administração e Ciências Contábeis
Pe. Anchieta (Jundiaí) e mestrado em História pela Unicamp.
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